terça-feira, 29 de novembro de 2011

Calça caída, vergonha não perdida...


Como cuidadora de idosos há algum tempo, procuro sempre dar o melhor de mim nas minhas atividades diárias, aperfeiçoando o meu atendimento, tratando o idoso com carinho e atenção e, claro, muita compreensão.

No trabalho mais recente que tive, eu ficava na residência da família durante a noite. Ou seja, eu acompanhava o “sono” do idoso. Ele tinha 87 anos, estava consciente, mas apresentava sintomas de Alzheimer, portanto precisava do acompanhamento de um cuidador no dia a dia. Eu precisei fazer um planejamento das atividades para me organizar e ter controle da situação. Foi difícil, mas fui conquistado meu espaço na casa e o respeito, a admiração e a confiança de todos.

Minhas atividades em relação ao idoso eram: dar a medicação nos horários certinhos, alimentá-lo, fazer a sua higiene pessoal e acompanhá-lo às consultas médicas. De fato ele não era totalmente dependente de uma cuidadora, tinha capacidade para exercer algumas atividades sozinho. Ele era educado e inteligente, mas com algumas manias adquiridas com a idade – que era avançada.

O que ele tinha de mais adorável eram as palavras. Depois de ter vivido tanto, o paciente contava as suas experiências de forma belíssima, e eu aprendia com elas. Seu único defeito era a teimosia. E também não gostava de tomar banho; aliás, o problema com o banho não era porque gostava de ficar sujo, e sim para fazer economia de luz. Com o tempo fui administrando essa questão, com muita paciência e conversa, até o impasse ser resolvido. Para mim foi uma vitória. Os amigos e vizinhos do paciente sempre o elogiavam que ele estava asseado, cheiroso, com barba feita, cabelo penteado.

Guardei muitas lembranças da convivência com este paciente. Dentre tantas que vivemos juntos, destaco uma história deliciosa, uma mistura de engraçada e constrangedora. Estávamos no primeiro dia do mês, o tal dia de receber a aposentadoria. Era uma manhã de sol, um dia bonito, ele quis ir comigo ao banco - todo arrumado, roupas limpas, cabelo penteado, barba feita.

O banco ficava a somente três quarteirões da casa, mas ele caminhava com certo grau de dificuldade, lentamente, o que fazia o percurso parecer mais longo. Quando chegamos à agência, exatamente no centro do grande salão, aconteceu o que não podia acontecer: a calça caiu! Ele ficou parado, sem saber o que fazer. O idoso vestia uma cueca samba-canção e, claro, ficou envergonhado com a situação mais do que embaraçosa. Ele arregalou os olhos para mim, e eu disse: “Calma, não se mexe porque pode o senhor tropeçar e cair.” Eu estava levantando suas calças quando uma senhora de meia idade se ofereceu para ajudar e disse: “Essas coisas acontecem...”

“É verdade”, confirmou o idoso, com muita calma. Nós agradecemos, fizemos o que precisávamos fazer no banco e fomos embora. De fato, o cinto da calça não estava corretamente fechado. É uma coisa que eu sempre verifico , mas nesse dia... me distraí! Ufa! Ainda bem que era o tal dia de receber a aposentadoria, dia feliz, e não levei bronca...

 Ivete Bonislawski
Cuidadora da Life Angels

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Gosto de cuidar


“Meu pai morreu por conta de um enfisema pulmonar, há 17 anos. Naquela época eu não podia fazer nada. Hoje, toda vez que cuido de alguém, lembro do meu pai. Parece que estou, finalmente, dando o carinho que ele precisou no hospital. Já atendi os internos da antiga FEBEM, já cuidei de pacientes com AVC e com Alzheimer. Os meninos da FEBEM não me davam trabalho. Eles gostavam da equipe da saúde, e não reclamavam nem na hora do curativo.

Meu primeiro paciente foi um senhor que teve um AVC porque a mulher dele sofria com Alzheimer. Acho que foi de tanto sofrer com a doença da mulher que ele teve o problema. Ele não aceitava os meus cuidados, ficava descontrolado. Mas eu sempre tive paciência.

Outro paciente que ficou guardado na minha memória foi um senhor que teve Parkinson. Ele ficava muito bravo por conta da atrofia dos músculos, e não conseguia se expressar, e dizer o que queria. Ele me agrediu muitas vezes. Mas aos poucos fomos nos entendendo. Eu comecei a fazer várias perguntas, até descobrir a necessidade dele: se era ir ao banheiro, ou um livro, que a fralda fosse trocada, ou ligar a TV. É preciso manter a calma.

Mas o meu maior desafio nessa profissão não são os pacientes, e sim os outros profissionais da casa onde trabalho. Eles pensam que a cuidadora, ou a enfermeira, quer se sobressair, e se sentem diminuídos e reagem mal contra a gente. Eles precisam entender que nós não somos melhores do que elas – só temos funções diferentes na casa.

Muito cedo eu aprendi a me portar na casa do paciente: eu estou com a família, mas não sou da família. A postura é essencial – hoje eu sei qual é a hora de sair do ambiente, durante uma discussão, ou de uma comemoração, por exemplo.

Minha maior felicidade: Quando um paciente se recupera e não precisa mais de mim".

Noeli Aparecida de Almeida Sena, 
cuidadora da Life Angels.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Meu Rei Roberto


Meu pai sempre foi um cara meio esquisito, fechado no mundo dele. A comunicação com os filhos nunca foi boa, sua interface com o mundo era minha mãe – e a televisão.  Minha mãe sempre, sempre o mimou. Almoço e jantar servidos na bandeja, na sala (mais tarde no quarto dele), em frente à tv – entre outras mordomias. Foi um bom pai, mas infelizmente não posso dizer que fomos amigos. 

Quando chegou aos 83, 84 anos, não sei precisar exatamente em que altura da sua vida, começou a desenvolver sintomas de demência, mas nós não sabíamos. Nem poderíamos saber, pois ele se recusava a ir ao médico, fazer exames, tomar remédios – todas essas ‘besteiras’, segundo ele.  Para todos nós, inclusive minha mãe, eram as  manias de sempre que se cristalizavam com a idade. Caprichos, esquecimentos, confusões, chatices, às vezes passagens engraçadas, tudo ‘coisa de velho’.

Hoje posso ver claramente que os sintomas eram, sim, de demência, mas vieram tão devagarinho, insinuantes, confudidos no quadro geral de boa saúde que ele sempre gozou, que não nos foi possível  àquela altura avaliar, desconfiar e tomar as devidas providências. A falta de paciência com ele crescia na exata medida em que os sintomas se agravavam. Cheguei a considerar a confusão mental como um artifício que ele usara para desvencilhar-se de situações incômodas. Tudo enfim era tomado como a esquisitice de sempre.

A conversa de minha mãe era um eterno resmungar sobre as atitudes dele. Ela queria ajuda, queria que eu dividisse com ela o tempo de cuidados com ele. Eu me recusei e sugeri que ela contratasse alguém que a ajudasse. Cultura de família italiana, espanhola, portuguesa – sei lá. Filha serve para ser cuidadora, não importa se ela trabalha, se ela tem uma vida ou luta para ter uma. Para piorar havia o exemplo da minha prima que cuidava e cuida até hoje dos pais. Foi e é notório o sacrifício que ela fez na sua vida, a anulação de todos os sonhos, o desgaste mental, pessoal e físico que ela apresenta. Minha mãe reagiu muito mal à minha sugestão. Brigamos.

Meu pai  foi se tornando mais e mais recluso, mais e mais enfiado na televisão cuja imagem a catarata (que ele recusou-se a operar) não lhe permitia ver direito. E então as coisas ficaram piores. Ele sofreu o primeiro AVC, ficou internado, recusando-se loucamente a não ficar internado. Recusava a fralda. Tirava a fralda para fazer xixi contra a parede. Falava coisas desconectadas, não entendia, não andava direito, caía. Um homem relativamente grande, minha mãe precisava chamar o porteiro do prédio para levantá-lo do chão.
A crise se instalou, pois era impossível  para ela cuidar de meu pai sozinha. Eu já estava morando no exterior, meu irmão em outro estado. Minha filha encontrou uma agência de cuidadores e Roberto chegou à casa de minha mãe,  totalmente revoltada com as circunstâncias da situação. Acho que Roberto percebeu que o principal problema para cuidar não era meu pai, era a mama, pisando duro, exalando mau humor, tratando-o como o devido estranho que ele era, determinando isso e aquilo, elevando ao grau 10 da escala ritcher aquele tsunami emocional.

E então fez-se a diferença. Roberto, um cara simples, nos seus 40 e tantos anos, gay assumidíssimo, sempre bem humorado, humilde e profundamente conhedor das minúcias de sua profissão. Ele fez a diferença, tratando meu pai com um carinho que há muito tempo o velhinho não experimentava. Rindo com o jorro de xixi que levou na cara, durante a noite, por que meu pai conseguiu se livrar da fralda. Fazendo o mingau de aveia dele, alimentando-o com uma conversinha  tão mole quanto aquela papa. Segurando-o com firmeza no banho, que passou a ser diário, fazendo-lhe a barba, penteando-lhe o cabelo. Elogiando-lhe a aparência, sempre falando bobaginhas carinhosas, sempre bem humorado, sempre exalando amor.

Minha mãe cedeu às evidências. Em pouco menos de uma semana estava apaixonada por Roberto, estava mais calma, sentindo-se livre para fazer suas coisas, viver sua vidinha. Em pouco menos de uma semana, o tsunami tornou-se um paraíso e fez-se a paz.

Meu pai sofreu outros AVCs, foi Roberto que detectou o problema, chamou a ambulância e providenciou tudo. Foram 30 dias de semi-uti, tubos, coma profundo. Roberto ficou com minha mãe, esteve todos os dias com ela no hospital, recebeu o telefonema do óbito e a amparou no momento difícil. Hoje eles são amigos. De vez em quando ela o avisa com antecedência, ele pede folga do serviço e vai com ela ao bingo. Ou a acompanha para fazer um exame médico. Ou simplesmente pra jogar uma conversinha fora, tomando um café que ele mesmo faz por que não gosta do café dela.

Ele é meu Rei Roberto. Ele foi  aquela fortaleza emocional em que você debruça seus problemas e chora suas mágoas, que te educa com o exemplo que dá.  Eles nos ensinou a todos como é simples amar um idoso – por mais chato que ele seja. Que Deus o abençoe, Roberto querido!

Angela Arantes Tucker
Cliente da Life Angels


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Saudades de Filó


A minha história aconteceu há seis anos. E foi tão especial, que me lembro dela quase todos os dias. 
Eu fui contratada para cuidar de uma senhora chamada Nora, que tinha fraturado o fêmur. Ela precisava de meus cuidados porque morava em Teresópolis, e os filhos, no Rio de Janeiro. Além disso, a dona Nora apresentava alguns sinais de confusão mental, apesar de ter os momentos de lucidez.

Depois do período obrigatório de repouso absoluto, foi indicado o uso da bengala. Até aí estava indo tudo bem. Mas como a paciente era muito carente, e tinha imensa dificuldade de expressar seus sentimentos, as complicações começaram. Dona Nora não se convencia de que precisava do novo apoio.

Tudo indicava que a situação se agravaria: a paciente não dava sinais que se acostumaria à bengala. Mas então veio a surpresa positiva: dona Nora não só começou a usar, como resolveu os problemas para se relacionar com as pessoas. A bengala ganhou vida, personalidade e até nome: Filomena, que logo se tornou Filó. Afinal, nós éramos íntimas.

Desta forma, quando a idosa tinha vontade de sair para passear, ou de apenas ficar em casa, atribuía a vontade da Filó. Era ela quem mandava. E por vezes, quando a dona Nora me dava algumas bengaladas (nada sério) ela colocava a Filó de castigo... a culpa era da bengala, claro, e não dela!

Ficamos assim, eu, dona Nora e a Filó, convivendo por três anos. Hoje já não moro mais em Teresópolis, mas mantemos contato freqüente. O bom é que, aquela dona Nora, toda durona, me liga perguntando quando é que eu vou visitar a Filó!

Só recentemente descobri a importância do nome Filó para a minha paciente: Filomena era como se chamava a avó de dona Nora, por quem ela foi criada.

Por Denise S. Arantes  
cuidadora Life Angels unidade Rio de Janeiro

Esta história ficou em primeiro lugar no concurso
promovido pela Life Angels em Outubro 2011

"Enganamos eles..."


É difícil cuidar de uma pessoa por algum tempo e não se afeiçoar. Isso aconteceu comigo algumas vezes – e com um paciente em especial. A despedida foi difícil.
Mas a cena se passou de forma tão marcante, que hoje é lembrada com bom humor e muito carinho.

Em 2004 cuidei de um paciente de 77 anos, dentro da semi-UTI de um famoso hospital de São Paulo. Foram exatamente dois anos e meio de tratamento. A relação – até com a família do idoso – que no começo foi difícil – ficou tranqüila e cada vez mais agradável ao longo do tempo. A ponto de a família visitar o paciente só nos finais de semana, rapidamente.

Na minha folga o idoso tinha até febre alta, tamanha falta que sentia da minha presença. Desta forma eu ficava até quinze dias sem folga. A amizade entre mim e o paciente cresceu a ponto de ele fingir que estava dormindo quando os parentes – principalmente a mulher dele – o visitavam. Depois disso, o paciente ria para mim, como quem diz: “Enganamos eles”.

Quando o meu paciente faleceu, eu só chorava. Aí vem a parte engraçada, em meio a uma cena triste. Muitas pessoas influentes foram ao velório. A mulher dele estava muito maquiada, com cabelo arrumado e cheio de laquê. Os óculos escuros chamavam a atenção.

Eu? Eu estava bem do lado do caixão, passando a mão na testa do meu paciente e me acabando de chorar. A cena foi tão marcante que até o neurologista do idoso – que havia me indicado à família, para fazer o trabalho - se aproximou de mim e disse para eu parar. Eu estava chorando mais do que todos - inclusive a esposa. Conclusão: depois disso eu e a colega que cobria as minhas folgas demos muita risada - foi hilário! Ficávamos imaginando a cena.

Até hoje sinto muitas saudades desse paciente. E a amizade com a família dele continua. Nem o fato de eu ter chorado mais do que a viúva atrapalhou.

 Monica Betty Rottner,
 cuidadora Life Angels São Paulo.

Esta história ficou em terceiro lugar, no 
concurso promovido pela Life Angels, em Outubro 2011

Natal e Reveillon

Ao longo dos meus anos de experiência, consegui guardar histórias marcantes. Mas uma delas sempre vem à minha cabeça, especialmente nesta época do ano. Na véspera do Natal de 2009, eu cuidava de um paciente que estava internado no Hospital Nipo Brasileiro. Ele havia feito uma cirurgia na bacia. 

A surpresa aconteceu: a família, de origem japonesa, mandou uma linda ceia de Natal para o hospital. Eram pratos lindos e saborosos – e até um garçom chegou para nos servir. Foi tudo muito emocionante.

Mas o melhor estava por vir. Na noite de Ano Novo, eu continuava no hospital, com o mesmo paciente. Os médicos, as enfermeiras, alguns pacientes, todos no corredor, se abraçando, como se fossem parte da mesma família.  Os pratos, preparados pelos médicos, estavam deliciosos. Todos nós, juntos, olhávamos pela janela, apreciando os fogos de artifício. Meu paciente me abraçou, e disse que estava muito feliz por eu estar ali com ele. Nunca mais esqueci deste abraço.

Fiquei com o paciente até fevereiro, quando ele faleceu na UTI, de insuficiência respiratória. Ele está no meu coração.

Wilma Conceição Joaquim
cuidadora da Life Angels.
Sua história ficou em segundo lugar no 
concurso promovido pela Life Angels em Outubro/2011.